
por Quatermass
A série Jornada nas Estrelas
realmente padece de uma maldição! Reconheço os méritos da série clássica
(1966-1969), três temporadas cujo episódio mais fraco ainda ganha de 10 a 0 em cima
de qualquer das franquias ou dos longas no cinema. Mas desconheço os motivos da
incapacidade de Hollywood em produzir uma série ou longa à altura do original.
O único diretor que chegou perto foi Nicholas Meyer, que além de dirigir também
sabe roteirizar. Se em Jornada nas
Estrelas II – A Ira de Khan fez bonito, em Jornada
nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida quase chegou lá, graças também ao
seu vilão (o general Chang).
O elenco original envelheceu, Deforest Kelley e
James Doohan já morreram. Havia a necessidade de uma reciclagem e assim o fizeram,
mas regada de equívocos. O novo elenco é empático, principalmente os novos
Spock e Mcoy; até Kirk está mais convincente como velho William Shatner
mulherengo. Mas de novo vem a questão do roteiro e do diretor.
Após assistir a
série clássica, mais A Nova Geração, Deep
Space Nine, Voyager e Enterprise,
cheguei a conclusão que um dos tantos méritos de Andromeda (também criação de Gene Roddenberry) deve-se a presença
de ótimos roteiros, coisa que Brannon Braga nunca viu, não vê, nem saberá um
dia o que seja!
(atenção: contém spoilers)
O que aconteceu com J. J. Abrams? Bateu com a cabeça? Tanto o seu
primeiro Star Trek (2009) quanto este
último são inconclusivos, com atores mal aproveitados, com direito à ponta de
Leonard Nimoy para matar a saudade dos fãs, roteiros exageradamente rápidos e estressantes
e com visual muito mais poluído que a última trilogia de George Lucas! Parece
que injetou Michael Bay nas veias e de repente, o trekkie deixa de ouvir as
saudosas baboseiras estelares e passa a assistir gritos, discussões inúteis e
explosões em dose tripla!


Os roteiros dos dois filmes (de 2009 e 2013) são
aparente confusos devido à interminável sequência histérica, mas se analisados
friamente chega-se a seguinte conclusão: de que Rômulus não existe mais;
Vulcano também não; que o velho Spock trava uma cruzada solitária; que o capitão
e toda a tripulação de Enterprise já conheciam Khan, ao contrário do episódio Sementes do Espaço, de 1967; esqueça o episódio piloto original (The Cage), assim
como os episódios The Menagerie partes 1 e 2, uma vez que o capitão Pike
é morto por Khan neste filme; que os romulanos e Klingons sofreram mutação genética
entre estes filmes e a temporada clássica; e que Kirk depois de 1969 havia sofrido
de andropausa ou impotência sexual.

O que dizer da história desta última obra
prima de J. J. Abrams? Prepare-se então
quando for ao cinema: Khan é um agente, uma arma de destruição em massa que
passa a castigar toda a frota estelar. No seu encalço estão James Tiberius Kirk
e o Almirante Marcus, pai de Carol Marcus e futura mãe de David (filho de Kirk).
Só de pensar já dá dor de cabeça; é como se o trekkie tivesse que deletar de
vez a série clássica diante do excesso de asneiras que o roteiro nos conduz.
A
Enterprise mais parece um navio cargueiro dos anos trinta de tanta tubulação: é
quase impossível transitar dentro dela; cadê o visual clean das séries? Tem mais lixo no espaço sideral do que os que
orbitam a Terra. Se no episódio de 1967 e no filme de 1982 Khan era de origem indiana
(Khan
Noonien Singh), agora segundo J. J., ele é um ariano de olhos azuis, indestrutível!
Qualé pô! J. J. errou em ressuscitar antigos personagens e jogá-los numa
mixórdia espacial sem pé nem cabeça.
Para encerrar há uma cena que, acreditem
se quiserem, Kirk entra no compartimento do reator da nave e salva a Enterprise,
porém, está fadado a morrer pela radiação. Só que agora quem fica do lado de
fora é Spock, eles se despedem com todas aquelas declarações de amizade ditas em
Jornada II. O lado bom é que Kirk se
recupera, não necessitando de um Projeto Genesis para renascer, nem de uma tenente
Saavik de plantão.
Mas inverter o roteiro mais que manjado das Jornadas II e III e dizer que com isto é
um filme novo atenta à inteligência de qualquer um. No IMDb a nota atribuída foi
8,3. Já que vou ser o único a criticar este filme do J. J. e como trekker
frustrado, porém não surpreendido, dou nota inversa: 3,8. Tá mais que bom! Até
a próxima novela, nobre internauta!